Continuarei a dançar...

26 de dezembro de 2009

Quem entra no mundo da dança jamais esquecerá o que este lhe proporciona, são momentos mágicos, pura e simplesmente únicos que nunca serão apagados das memórias daqueles que fizeram da dança o seu modo de vida durante alguns anos.

São deixados para trás os namorados, os almoços de família aos domingos, as saídas de 6ª e de sábado à noite, as festas de aniversário e até por vezes os amigos. Tudo isto para passarmos horas a treinar, para sermos os melhores dos melhores, para cairmos vezes sem conta e nos voltarmo-nos a levantar mais uma vez. Estamos ali porque amamos o que a dança nos proporciona, aquele nervosismo, aquele aperto no estômago antes de entrar na pista, o esquecimento repentino dos passos, o ouvir do nosso nome e a música começa...

Vai valer a pena tudo o que passámos, foi com isso que crescemos, que nos tornámos no que somos hoje. Vai valer a pena as nódoas negras nas pernas, os pés feridos, o levantar cedo, a maquilhagem, o cabelo cheio de gel e laca, os vestidos, o cansaço, a fraqueza, as lágrimas, os sorrisos...

Fomos considerados a geração da dança, acreditaram que era em nós que estava o futuro! quanta responsabilidade nos nossos pés, nos nossos movimentos. Por perto estará sempre alguém à espera das nossas falhas para nos julgar e dizer "Hoje não foi um bom dia, para a próxima corre melhor..."

Nunca esqueceremos as longas viagens, as noites em que não parávamos de quarto em quarto, o apoio que demos uns aos outros no estrangeiro, o quanto gritamos, o quanto nos uníamos quando dançávamos lá fora, porque estarmos unidos naquele momento era importante. Quando um de nós fazia um passava um round estávamos lá para apoiar, era Portugal e não havia distinção, estávamos repletos de orgulho por ver os nossos na pista a dar o seu melhor, o passar de uma eliminatória era motivo de festa!

Fomos e somos a geração da dança, porque deixámos a nossa marca de qualquer maneira, porque houve pessoas que se orgulharam de nós, que acreditaram no nosso esforço, nas nossas lágrimas, no nosso cansaço, nas horas passadas em frente ao espelho para levar aquele movimento ao pormenor...

Porque despertámos sentimentos, sorrisos, olhares, ciúmes... Porque aprendemos a ser adultos quando ainda éramos crianças, a ser mais responsáveis, a ser sensuais sem ainda sequer ter idade para isso. Porque nos ensinaram que o difícil teria que parecer fácil, que quem dança para ganhar perde e quem dança por prazer ganha... Porque não interessava se falavam mal ou bem, o que interessa era que falassem, porque éramos e ainda somos o orgulho de alguém. Porque gritaram connosco quando as coisas não corriam bem e davam aquele abraço de conforto, porque estavam lá quando dávamos o nosso melhor para limpar o nosso suor, para dar a garrafa de água, sabia tão bem... Porque sabiam havia uma "estrelinha", que erámos especiais, o diamante por lapidar...

Pelas medalhas, pelas lágrimas, pelo meu sorriso, pelo teu, pelo meu suor, hoje olhando para trás sei dizer que valeu a pena, que voltaria a viver tudo, os bons e maus momentos, no que me transformaste, no que aprendi contigo, hoje sou assim graças a ti!

Obrigada por tudo o que me deste, as palavras serão sempre poucas, o sentimento é enorme, AMO-TE!

Tive que abandonar a competição, são escolhas que se fazem! Chorei, gritei, cai, fiquei de rastos... Neste momento disse ate já, mas não digo adeus...continuas no meu coração como no primeiro campeonato a que fui, como o meu primeiro vestido, como os meus primeiros sapatos, como o meu primeiro par. Tudo está cá dentro para mais tarde recordar, para mais tarde chorar baixinho quando ninguém estiver por perto, porque despertas o que há de melhor em mim, porque és um dos amores da minha vida que nunca me deixou até mesmo quando eu te deixei, que nunca me disse não, que nunca me mentiu!

Os amigos, os sentimentos que partilhamos, as confidências, as traições, as zangas, ficam também para sempre porque sem eles nada seria igual, porque sem eles a competição não seria igual. Cá fora amigos, lá dentro rivais, era esse o poder de uma simples pista, de uma simples dança...

Com o tempo vão se perdendo aqueles que sempre amaram a dança acima de tudo, vão se perdendo os melhores porque cada um segue com a sua vida, mas fica a memória de que um dia foram alguém no mundo da dança, que marcaram e que ainda se fala neles. Porque foram os melhores, porque fizeram parte da geração da dança, porque gritaram, choraram, suaram, trabalharam sem fim para o serem.

E depois disto será que ainda são capazes de me dizer que não somos atletas e que não fazemos alta competição?

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